Jornalismo Tradicional versus Ciberjornalismo

July 6, 2008

Actualmente, o jornalismo tradicional enfrenta vários desafios. Na opinião de muitos, a imprensa escrita tem vindo a perder leitores e o jornalismo online começa a cativar um número maior de consumidores.

O futuro do jornalismo acaba, desta forma, por ser incerto. A propósito deste assunto, a Coordenadora Geral do Diário do Minho, Luísa Teresa Ribeiro, a convite do Teatro na Rua, expõe aquele que considera ser o actual exercício do jornalismo, o contributo dos “novos media” e o futuro do jornalismo impresso.
  
Teatro na Rua: Como caracteriza, actualmente, o exercício do Jornalismo?

Luísa T. Ribeiro: O jornalismo tem de lidar diariamente com alguns constrangimentos, sobretudo de cariz económico, o que acarreta muitas vezes o expurgar das redacções dos jornalistas seniores em detrimento de jovens com vínculos profissionais precários, o que tem obviamente reflexos no trabalho que é produzido. 

Em primeiro lugar, um jornalista jovem tem, à partida, um leque mais reduzido de fontes de informação, pelo que a variedade dos temas que vai abordar será mais reduzida. Por outro lado, verifica-se a falta da memória necessária para enquadrar correctamente os assuntos que estão a ser tratados. 

Para além disso, um profissional com um vínculo precário, que obviamente precisa de pagar as contas, mesmo que seja só a comida, estará mais vulnerável perante as pressões do exterior e do interior do próprio meio de comunicação social. 

Não nos podemos esquecer que os jornalistas têm de lidar com a cada vez maior profissionalização das fontes de informação, que diariamente competem entre si para ter acesso aos meios de comunicação social. Do mesmo modo, num cenário de concorrência, também os próprios “media” seguem lógicas concorrenciais, optando por estratégias que pouco ou nada têm a ver com o interesse público.

O cenário torna-se ainda mais complexo se tivermos em conta os desafios colocados pelas novas tecnologias, quer em relação aos formatos jornalísticos, quer em relação aos modelos de negócio que as empresas devem seguir.
 
TnR: Que contributos considera que os novos media podem dar ao jornalismo tradicional?

LTR: Centro-me nos blogues, uma vez que considero que eles são um desafio para os meios de comunicação social. Mais do que concorrentes ou alternativas, eu vejo os blogues como um desafio, como uma oportunidade única para os meios de comunicação tradicionais e para os jornalistas reflectirem.

Os blogues são um elemento novo, que obriga os “media” tradicionais a repensarem as suas rotinas diárias. Que obriga os jornalistas a questionarem o seu papel e os seus métodos de trabalho. Que está permanentemente vigilante em relação ao que se passa. Que exerce o escrutínio necessário para a desejável melhoria da qualidade…

Desde logo, os “media” devem olhar para a questão dos temas que incluem na sua agenda. Embora muitos blogues continuem a ser repositórios de questões pessoais, que não têm interesse do ponto de vista jornalístico, outros há que são o barómetro de uma comunidade, na medida em que são a face visível da participação cívica de um grupo mais ou menos vasto de cidadãos. Os “media” não podem, portanto, ignorar as agendas da blogosfera, que funciona como uma fonte de informação, que deve ser trabalhada jornalisticamente.

Não nos podemos esquecer que os bloggers não têm de cumprir uma série de regras a que os jornalistas estão obrigados, entre as quais está a auscultação de todas as partes ou o dever de isenção no tratamento da informação. Da mesma forma, muito do que está na blogosfera é do domínio da opinião e, se virmos bem, uma boa parte do que alimenta os blogues é retirado dos meios de comunicação social tradicionais.

O acompanhamento da blogosfera, em permanente expansão, exige muito tempo, tempo que os jornalistas por vezes não têm quando as “máquinas” em que trabalham lhes exigem uma produção de milhares de caracteres por dia ou histórias mais ou menos bizarras para “encher” os olhos ou ouvidos dos leitores/espectadores/ouvintes.

Um caso que demonstra a pertinência do acompanhamento da blogosfera foi o que se verificou em Braga, com o lançamento no blogue Avenida Central de uma petição on-line que pedia o regresso do eléctrico à cidade e a incentivar o debate sobre o sistema de mobilidade (podem ver o resumo de uma comunicação que apresentei sobre este caso, que está disponível na página da Universidade Fernando Pessoa), no qual a primeira notícia, que teve chamada à primeira página do Jornal de Notícias, foi escrita por Pedro Antunes Pereira, um jornalista-blogger.

Mesmo que os jornalistas estejam atentos, há uma questão incontornável: o factor tempo. Um exemplo? O Diário do Minho publicou uma carta de um leitor, na edição imediatamente a seguir à sua recepção. Só que esse texto foi discutido no blogue Avenida Central no dia em que o autor o enviou, ao mesmo tempo, para as entidades competentes, meios de comunicação social e blogues, no post “Avenida dos Leitores: É Bom Viver na Quinta dos Congregados!”.

Quando um jornalista se propõe pegar em determinada “estória” tem de fazer a auscultação de todas as partes implicadas, o que não é tarefa fácil, especialmente quando estão em causa assuntos delicados. Ora, mesmo que tenha boa vontade, o jornalista necessitará sempre de mais tempo para tratar uma questão do que o blogger.

O Avenida Central publicou um post em que questionava se a Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, uma biblioteca da rede pública, estava a barrar o acesso aos blogues alojados no domínio blogspot.com. A directora acabou por responder na caixa de comentários do post, em igualdade de circunstância com os outros leitores, o que acabou por dar origem a um novo post. A questão resolveu-se num tempo que não é o de um jornal diário sem edição online.

Os bloggers têm uma mais-valia em relação aos jornalistas: são provenientes de diversas áreas do conhecimento e vivem no “mundo real”. Provavelmente, o pior sítio onde se pode estar para saber novidades é numa redacção, longe do mundo. E há jornalistas que são “pássaros de gaiola”, a escrever quase permanentemente de fundilhos na cadeira. Podem até dar o essencial da informação, mas jamais conseguirão transmitir as imagens, os sons, os cheiros de quem esteve no local.

Mais do que fontes de inspiração, os blogues passam por vezes a locais onde é fácil colher textos e fotografias. Estão ali à mão de semear, como se aquele trabalho fosse propriedade colectiva. Alguns repetem com a blogosfera o que já faziam com outro material com direito de autor: “copy” e “paste”.

Os blogues também são excelentes instrumentos para a reflexão sobre o jornalismo, quer feito por que não está ligado ao meio, quer pelos próprios jornalistas. Dou-lhes um exemplo concreto: o Trio de Rachar, um blogue no qual eu participo.

”Creio que os jornais levam cada vez mais a sério os blogues, até com a criação de espaços próprios para a citação do que se escreve na blogosfera. No entanto, tal como noutros aspectos, há uma diversidade muito grande de posições, que vão desde os que se recusam a ler blogues até aos que já incluíram os blogues na lista diária de leituras obrigatórias”.
 
TnR: Os jornais têm vindo a adaptar-se ao online. O que pensa desta adaptação?

LTR: A adaptação tem sido feita, regra geral, e em especial a nível nacional, de forma tímida, até pelo elevado grau de incerteza que rodeia esta área. Esta adaptação acarreta algumas mudanças estruturais, que nem sempre são fáceis de implementar. O online tem imensas potencialidades, que estão muito longe de estarem exploradas. O futuro passará certamente pelo explorar dessas potencialidades.
 
TnR: Qual pensa ser o futuro da Imprensa? Poderá o jornal impresso acabar? A nova geração vai estar mais ligada ao computador ou ao papel?

LTR: A nova geração vai estar cada vez mais ligada ao computador, mas não acredito no fim do jornal impresso, pelo menos no futuro mais imediato. Poderá haver mudanças na estrutura tradicional dos jornais, com a criação de complementaridades com outros formatos.

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